domingo, 2 de outubro de 2011

Nada se consegue sem um bom orçamento

Muitas vezes projetos bem concebidos do ponto de vista conceitual são comprometidos pela inexistência de recursos para financiar as atividades programadas. Nenhum grande cientista consegue atingir seus objetivos se deixa de aprender desde os primeiros anos de atuação a obter financiamento para viabilizar na prática as suas propostas. Nada mais ingênuo do que pensar que uma boa idéia na cabeça basta para transformar alguém em um cientista reconhecido pela originalidade de suas descobertas.  Cada vez mais o trabalho científico pressupõe ações complementares que vão da proposição de bons projetos, formação de equipes qualificadas, obtenção de recursos, construção de uma infraestrutura de pesquisa e cumprimento de prazos acordados.

O financiamento dos projetos varia de acordo com os tipos (Individuais ou Institucionais) e os modelos de obtenção dos recursos (Público, Privado, Comunitário ou Misto. Os projetos individuais normalmente são mais simples e desenvolvidos por pesquisadores em formação ou recém formados enquanto os institucionais são realizados por equipes vinculadas a uma determinada organização. Os melhores resultados são obtidos quando se consegue diversificar as fontes de financiamento. Se, por um lado, numa estratégia de longo prazo nenhum país se constitui como referência na área de Ciência, Tencologia e Inovação sem uma política de financiamento público. Por outro, tampouco se recomenda a total dependência das fontes governamentais. O financiamento privado, oriundo do re-investimento de parte dos lucros obtidos com pesquisa e inovação, e o financiamento comunitário são essenciais para a consolidação de um sistema de pesquisa sólido e diversificado.

A elaboração de um orçamento adequado é tão importante como aprender a revisar a bibliografia, delimitar o objeto de estudo, definir a metodologia aplicada e o cronograma de atividades. Atualmente, na formação dos jovens pesquisadores, uma das lacunas menos preenchidas é justo como ensinar a viabilizar a execução dos projetos concebidos. Nos processos de seleção de cursos de pós-graduação e, menos ainda nos trabalhos de conclusão de graduação, são raros os casos em que são cobrados nos projetos a elaboração de um orçamento, incluído como item obrigatório, que indique com clareza a existência de recursos para a conclusão do trabalho e a capacidade do coordenador de obter financiamento e utilizar de forma correta  os recursos existentes em cada uma das etapas do cronograma.

Com um abraço,

Elias.

sábado, 30 de abril de 2011

O segredo está na formação da equipe


De nada adianta um tema de grande relevância, com uma revisão competente da literatura, um objeto de estudo bem delimitado, uma fundamentação conceitual consistente, hipóteses de trabalho instigantes, metodologia e procedimentos adequados e planejamento correto do cronograma sem uma equipe de trabalho capacitada para desenvolver o projeto de pesquisa nos prazos e condições pré-estabelecidos. Nos casos mais simples a equipe se resume ao pesquisador e ao orientador com atuação em um mesmo laboratório enquanto nos mais complexos as equipes, muitas vezes, envolvem dezenas de pesquisadores, alocados em instituições ou países diferentes. A execução de um projeto pressupõe a montagem de uma equipe de trabalho o que requer a tomada de alguns cuidados que iremos sistematizar na forma de regras básicas:

Regra 1: A existência de um líder capaz de coordenar todo o processo de produção de conhecimento proposto pelo projeto que será desenvolvido. O líder deve ter reconhecida competência científica e capacidade de gerenciar as crises muito comuns ao longo da execução das diversas tarefas propostas no cronograma. Nos projetos mais simples (iniciação científica, mestrado e doutorado) os líderes são os orientadores; nos projetos mais complexos e integrados as variáveis para a definição da liderança vão muito além da simples relações orientador-orientando, dependendo dos acordos entre as diversas instituições envolvidas.

Regra 2:  Além de uma liderança científica consolidada o desenvolvimento com sucesso de um projeto de pesquisa passa pela incorporação à equipe de profissionais qualificados para responder pelas tarefas especializadas de nível técnico ou de gerenciamento.  A conclusão de um projeto requer a execução de dois tipos de trabalhos: os científicos e os técnicos. Menos relevantes do ponto de vista científico, as tarefas técnicas são essenciais para alcançar os resultados previstos e para o término das atividades dentro dos prazos estabelecidos.

Regra3:  A necessidade de que exista entre os membros da equipe uma sintonia plena do ponto de vista dos objetivos  gerais propostos.  Os objetivos específicos podem e, na maioria da vezes, variam de pesquisador para pesquisador, mas dentro de uma mesma equipe todos devem atuar para atingir objetivos gerais idênticos.

Regra 4: A definição clara de tarefas e atribuições entre todos os membros de equipe de modo que se possa cobrar resultados e o cumprimentos dos prazos estabelecidos de acordo com o cronograma. Evitar ao máximo que a ambigüidade na designação das tarefas impeça a atribuição de responsabilidades em caso de descumprimento dos prazos ou de erros detectados ao longo do trabalho.

Regra 5: O respeito das hierarquias existentes entre os diferentes membros da equipe de trabalho. Como uma atividade de natureza coletiva, o processo de produção de conhecimento pressupõe o reconhecimento dos diferentes níveis de competência de cada um dos pesquisadores. O resultado final depende sempre de uma harmonia entre todos os participantes da equipe, cada um complementando a tarefa realizada pelos outros colegas.

Com um abraço,

Elias.

sábado, 16 de abril de 2011

Tudo passa por um bom cronograma

Quanto mais experiente, mais o pesquisador dedica tempo para a elaboração do cronograma.  Não se deve pensar que concluídas as fases mais conceituais como revisão da literatura, definição do objeto, elaboração das hipóteses e metodologia, tudo está resolvido. As chamadas etapas mais técnicas de execução do projeto – cronograma, orçamento e definição da equipe -  são tão importantes quanto as outras mais abstratas. Em um projeto de pesquisa as deficiências de uma etapa sempre trarão conseqüências para a conclusão das demais e não se pode tratar de forma superficial e instrumental etapas que cumprem uma função estratégica para o término dos trabalhos no prazo estabelecido. 

O cronograma de um projeto antes que uma simples atividade burocrática representa uma síntese das diversas etapas da pesquisa. Em um bom projeto o cronograma deve ser em primeiro lugar exeqüível. Através do cronograma se pode verificar em que medida o responsável pela proposta consegue distribuir o tempo, os recursos técnicos, financeiros e humanos ao longo do prazo disponível. Ao mesmo tempo que revela a capacidade de planejamento de quem coordena o projeto, o cronograma possibilita um melhor acompanhamento para garantir a execução do que estava previsto.

Como em um projeto de pesquisa a definição de cada uma das etapas pressupõe uma elaboração conceitual prévia, cabe chamar a atenção que deve se evitar ao máximo desvincular o cronograma do núcleo central do projeto, relegando esta fase a uma espécie de apêndice. Muito pelo contrário.  O cronograma necessita refletir um planejamento criterioso para garantir o máximo de eficiência na administração dos recursos disponíveis para alcançar os objetivos e as metas propostas, através da aplicação da metodologia e dos procedimentos selecionados.  A definição correta do cronograma passa pela delimitação das atividades, da sequência das tarefas desenvolvidas e pela distribuição dos trabalhos entre os membros da equipe. Como se pode ver, tudo depende do cronograma.

Um bom cronograma exige um certo grau de flexibilidade que permita uma margem de adequação em caso de necessidade de remanejamento da sequência original proposta. É pela diversidade das fases, pela lógica da sequência existente entre as diversas etapas e pelo grau de ajustes possíveis entre estes diferentes momentos de realização da pesquisa que se pode identificar a complexidade do planejamento de um projeto. Se for muito rígido o cronograma pode inviabilizar a execução plena do projeto se ocorrer um imprevisto, o que na maioria das vezes, é inevitável. Em contrapartida, caso seja muito flexível, o cronograma pode se transformar em uma armadilha para os executores do projeto porque contribui para desconstruir a racionalidade existente entre as etapas, a sequência das operações e a sincronia das tarefas desenvolvidas pelos pesquisadores da equipe.

Com um abraço,

Elias.

domingo, 10 de abril de 2011

As funções da descrição na pesquisa aplicada

Como vimos na postagem anterior, a descrição representa apenas uma etapa intermediária na produção do conhecimento científico. Antes de existir como um fim em si mesma, a descrição deveria possibilitar a coleta de dados e informações para viabilizar as fases mais abstratas de elaboração das categorias de análise e definição dos conceitos. Se existe pouca bibliografia sobre os limites da descrição na pesquisa científica de caráter teórico em Jornalismo, são ainda muito mais raros os textos de referência sobre a descrição na pesquisa aplicada, destinada à transformação dos conhecimentos puros em inovação na forma de produtos, processos, técnicas, tecnologias, linguagens, formatos, protótipos, etc...

Em primeiro lugar, cabe esclarecer que a pesquisa aplicada pressupõe a pesquisa pura.  Nas sociedades contemporâneas o pleno desenvolvimento social depende que, ao menos uma parte do conhecimento científico puro, seja traduzido em inovações.  Neste contexto, o circuito do conhecimento passa pela pesquisa pura, pela pesquisa aplicada e pela inovação. Cada uma destas etapas deve estar em plena articulação com as outras de modo a que se possa retroalimentar continuamente o sistema de produção do conhecimento.  Na área de Jornalismo existe um déficit de pesquisa aplicada porque a maioria das pesquisas realizadas ou são meramente descritivas, pré-teoréticas, ou porque, mesmo quando produzem conhecimento teórico de alto nível, são incapazes de estabelecer relações com os setores produtivos da sociedade para desenvolver inovações.

Na pesquisa aplicada a descrição desempenha diversas funções ao longo do processo de transformação do conhecimento puro em aplicação que atenda uma demanda social concreta. O primeiro momento é o da descrição do produto, processo, técnica, tecnologia, formato ou protótipo projetado e das funções que cada um dos membros da equipe envolvida no processo de produção vai ocupar. A inexistência da descrição detalhada do que se pretende produzir e das funções de cada um dos membros da equipe simplesmente inviabiliza o começo do desenvolvimento. Uma vez iniciada a produção, cada uma das etapas deve ser descrita para que se possa compreender as particularidades, limitações e descobertas ocasionais durante as reuniões de avaliação do projeto.

Como o desenvolvimento em si e os produtos, processos, técnicas, tecnologias, formatos ou protótipos são etapas inter-relacionadas na cadeia de produção de conhecimento, a descrição de cada uma destas fases fornece os elementos para a sua plena compreensão, avaliação e, sempre que for o caso, redefinição. Na medida que avança o processo de produção das inovações a equipe responsável pelo projeto aproveita a própria experiência para refletir conceitualmente e para definir e repensar as estratégias metodológicas adotadas. Nenhum destes momentos pode ser executado sem uma descrição do que aconteceu, como, em que condições e o tipo de resultado obtido. Se, por um lado, as descrições das ações singulares são insuficientes para chegarmos ao conhecimento conceitual, de natureza universal e abstrata, por outro, os aspectos captados pelas descrições singulares são um pressuposto para definição das categorias de análise e para a elaboração dos conceitos.   

Com um abraço,

Elias.


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Limites da descrição na pesquisa científica

Quem analisa projetos, orienta alunos e participa de congressos percebe que cada vez mais falta aos jovens e, em muitos casos, aos pesquisadores mais experimentados, o pleno domínio do processo de produção do conhecimento científico. Uma boa parte destes trabalhos permanece na simples descrição dos objetos estudados, sem chegar ao nível conceitual e menos ainda à proposição de teorias.

Entre os vários tipos de conhecimento existentes: o do senso comum, o artístico, o religioso, o jornalístico, o filosófico e o científico, o que caracteriza este último é a utilização dos conceitos para a definição e a descrição das características dos objetos sistemática e metodicamente investigados.  Se, por um lado, trabalha na esfera dos conceitos, por outro, o conhecimento filosófico é mais antigo e apresenta diferenças quando comparado com as práticas científicas constituídas na Modernidade, principalmente no caso das exigências de experimentação sistemática e no desenvolvimento de inovações, permanecendo no âmbito da argumentação lógica e da análise crítica das proposições e teorias.

Na pesquisa científica a descrição representa um meio para um fim que se atinge com a produção de categorias de análise e na elaboração dos conceitos. A sistematização dos conceitos leva a proposição de teorias que, quando diversificadas e consolidadas, a partir da definição de um objeto e de métodos e procedimentos, dão origem às disciplinas. O conjunto articulado de disciplinas constitui uma área ou uma grande área de conhecimento. A produção de conhecimento científico pressupõe o uso de métodos e procedimentos e uma série de etapas que são variáveis de caso a caso e de uma disciplina para a outra.

Nestas diversas etapas a descrição cumpre com diferentes funções. Nas fases preliminares de análise de possíveis objetos para a amostra do estudo possibilita definir particularidades, regularidades e rupturas; durante a pesquisa permite identificar procedimentos, ambientes, ações e reações, comportamentos, processos, produtos, formatos, protótipos, linguagens, técnicas, tecnologias, etc... e, finalmente, nos relatórios e nos trabalhos acadêmicos (artigos, monografias, dissertações e teses), uma vez sistematizada através de abstrações teóricas, contribui para dar forma às categorias de análise, aos conceitos e a ilustração de argumentos para a formulação de teorias. 

Enquanto procedimento que se incorpora as diferentes etapas de produção do conhecimento científico, a descrição - por si mesma  - não pode ser vista como um fim porque opera no nível pré-conceitual e pré-teorético. Sem a prévia abstração que possibilita identificar traços invariáveis existentes em determinado objeto, produto ou processo, a simples descrição, por mais completa que seja, está confinada aos limites exteriores do caso específico, ficando aquém das categorias de análise e dos conceitos, que são o ponto de partida para o que, em termos acadêmicos,  se convencionou definir como conhecimento científico. 

Com um abraço,

Elias.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Orientações básicas para um bom resumo

Certa vez, quando era estudante de ensino médio, meu professor fez uma pergunta em classe: por onde se começa a ler um livro? A maioria respondeu que pelo título ou pela introdução. O professor recomendou que antes deveríamos consultar a bibliografia. “Se não revisou a literatura de referência, em geral, não vale o esforço da leitura”, alertou. Quem consulta trabalhos acadêmicos, antes de mais nada, avalia os resumos e, a depender da estrutura, da qualidade do estilo e das informações contidas, não vai muito além na leitura do artigo, monografia, dissertação ou tese. Se quiser aumentar a probabilidade de difusão e aceitação de suas obras e facilitar a vida de pesquisadores, bibliotecários e avaliadores é recomendável ter alguns cuidados formais e estilísticos na elaboração dos resumos.

A estrutura padrão mínima de um resumo pressupõe cinco elementos básicos:  1) título; 2)definição do tema ou do objeto da pesquisa; 2) objetivos; 3) metodologia em caso de pesquisa empírica ou referencial teórico utilizado; 4) resultados da pesquisa e 5) palavras-chave. Em caso de resumos de projetos dispensa-se o quarto ponto porque, obviamente, não se pode antecipar as descobertas de uma pesquisa que sequer foi desenvolvida. Destes cinco elementos, em geral, na área de Jornalismo os mais adotados são a definição do tema ou objeto e os objetivos. Uma boa parte dos colegas ainda esquece da necessidade de incluir a metodologia e/ou referencial teórico empregados e ainda são raros os casos de resumos com a estrutura formal completa, com a apresentação dos resultados alcançados.

Um resumo começa por um bom título. O título deve apresentar e delimitar o objeto de estudo e os objetivos ou resultados da pesquisa. Nada impede que para atrair a atenção o título seja mais conotado, desde que se precise o objeto de estudo no subtítulo. Nunca deixe de indicar o período, a instituição ou lugar de realização do estudo.  É aconselhável uma linguagem objetiva e clara com o uso de estilo acadêmico, evitando gírias ou termos coloquiais e ambíguos. Deve-se ter o máximo de cautela para utilizar os conceitos com exatidão, reduzindo os riscos de equívocos de interpretação. Como nem todos os conceitos são amplamente conhecidos, indicar sempre as referências para possibilitar uma compreensão plena do conteúdo do trabalho.

Além dos cuidados estilísticos e da adoção de uma estrutura padrão mínima um bom resumo necessita ser redigido na norma culta da língua, sem erros sintáticos ou de concordância, obedecendo a uma argumentação lógica.  No resumo a precisão e a concisão são dois aspectos imprescindíveis e complementares. A síntese do que se pesquisa, com que objetivos, com que metodologia ou referencial teórico e dos principais resultados não pode levar a um texto vago ou impreciso que impeça que este elemento estrutural básico em qualquer trabalho ou projeto acadêmico cumpra com a sua função. Um resumo tem em média 10 a 15 linhas e vem acompanhado de três a cinco palavras-chave diretamente relacionadas com o conteúdo. Em casos de resumos menores somente aumenta a exigência de poder de concisão do pesquisador. 

Com um abraço,

 Elias


quinta-feira, 24 de março de 2011

Hipótese funciona como guia de orientação

As hipóteses são essenciais para orientar os rumos e o grau de controle de qualquer pesquisa. Guardadas as particularidades, um pesquisador que desenvolve um projeto sem hipóteses não é muito diferente de um marinheiro que navega sem instrumentos de orientação. Ambos estão condenados ao acaso das circunstâncias.
Como materializa uma proposta de trabalho que pressupõe racionalidade, um bom projeto de jeito nenhum deveria abrir mão de apresentar ao menos uma hipótese, que testada ou discutida contribua para o aumento do conhecimento acumulado. No modelo padrão sugerido pelos manuais de pesquisa, as hipóteses têm a forma de uma pergunta ou de uma afirmação em que se sintetiza o conhecimento provisório existente sobre um determinado objeto.
Ocorre que, mais importante que seguir a receita dos manuais, é compreender a função das hipóteses em um projeto e perceber que as perguntas ou as afirmações provisórias são somente duas possibilidades entre outras de sistematizar o conhecimento alcançado e de estruturar de modo lógico o roteiro que servirá de guia para o pesquisador. Nada impede que a hipótese seja apresentada como um texto bem fundamentado de uma página ou duas em vez de uma simples pergunta ou afirmação de uma a duas linhas.
Em trabalhos de graduação ou mestrado é mesmo mais recomendável que no lugar de várias hipóteses sintéticas, o que dificultaria a comprovação ou discussão mais aprofundada em uma monografia com em média três capítulos, seja elaborada apenas uma hipótese bem construída, com base em uma competente revisão da bibliografia de referência e em um bom estudo preliminar exploratório.
Desconfie de quem recomenda que as hipóteses são dispensáveis em caso de trabalhos de conclusão de graduação ou em dissertações de mestrado, aparecendo como uma exigência protocolar apenas em teses de doutorado. Em termos científicos o que diferencia uma pesquisa de um aluno de graduação de um de doutorado não é nem o rigor nem o procedimento formal como a necessidade ou não de incluir hipóteses, mas sim o grau de complexidade do problema, das matrizes teóricas e metodológicas, das próprias hipóteses testadas ou discutidas e, óbvio, dos resultados obtidos.
Em vez de estimular uma perversa divisão social do trabalho acadêmico em que a formulação de hipóteses cabe somente a quem está no topo da pirâmide, deveríamos compreender que sem uma formação de base integral nunca se conseguirá constituir uma verdadeira comunidade científica. Nos centros de pesquisa preocupados com a qualificação contínua dos seus profissionais e a democratização do conhecimento, os membros são diferenciados não pelo acesso aos procedimentos ou aos objetos de estudo, mas pelo tipo de relação que cada um mantém entre si (orientador/orientando; sênior/em formação) e pelas funções que desempenha nestas instituições (pesquisador-chefe/pesquisador/assistente de pesquisa).

Com um abraço,

Elias.

terça-feira, 22 de março de 2011

A fixação das metas depende dos objetivos

Sem objetivos claros não se consegue chegar a nenhum lugar. Todo projeto de pesquisa pressupõe a definição de objetivos gerais e específicos capazes de orientar as atividades desenvolvidas com a finalidade de atingir as metas previstas. Entre as muitas possíveis destaco cinco funções exercidas pelos objetivos em um projeto: 1) canalizar os esforços da equipe numa mesma direção; 2) evitar a dispersão dos recursos na busca do conhecimento,  3) especificar os aspectos do objeto de estudo que têm mais interesse para os pesquisadores, 4)possibilitar a criação de hipóteses mais concretas que serão postas à prova  ou discutidas e 5) definir com mais precisão a matriz metodológica e os procedimentos adotados.
Na divisão de propósitos cabe aos objetivos gerais uma demarcação do tipo de ações desenvolvidas do ponto de vista do conhecimento mais amplo do objeto de estudos, enquanto que os objetivos específicos têm por função descrever as atividades que serão realizadas pelos pesquisadores nas diversas etapas da investigação. Se com os objetivos gerais se determina os limites em que se circunscreve a área de atuação do pesquisador, reduzindo a chance de fracasso ou desperdício dos recursos existentes, com os objetivos específicos se espera  que  o pesquisador tenha condições de minimizar os riscos de empreender esforços dispersos, sem  um finalidade mais restrita e exeqüível previamente estabelecida.
Como estão relacionados com as ações empreendidas os objetivos são delimitados por atividades muito concretas como analisar, verificar, compreender, classificar, conceituar, definir, caracterizar, catalogar, entre muitas outras, variando de caso para caso. Antes de definir os objetivos específicos tampouco podemos elaborar as hipóteses de trabalho que possibilitarão atingir as metas traçadas. As hipóteses são a materialização provisória do conhecimento que deveremos testar para chegarmos aos objetivos enquanto que as metas são a tradução dos objetivos na forma de resultados mensuráveis. Se a definição do tema, construção conceitual e a delimitação do objeto são passos preliminares para redação dos objetivos, a matriz metodológica, a aplicação dos procedimentos, o fechamento do cronograma, o orçamento e a equipe responsável são instâncias de mediação para que se possa lograr os objetivos com sucesso.

Com um abraço,

Elias.

sábado, 19 de março de 2011

Nem todo projeto de pesquisa se justifica

Não tenha a menor dúvida: nem todo projeto de pesquisa consegue apresentar justificativas para se sustentar e garantir a aprovação dos pareceristas e agências de fomento. Escolher um bom tema, que agrade ao pesquisador e atenda às demandas científicas e sociais, empreender uma revisão criteriosa da bibliografia de referência, definir conceitualmente e delimitar o objeto de estudo são passos importantes, mas insuficientes para elaborar um bom projeto. Sem uma justificativa que convença aos avaliadores dificilmente um projeto consegue aprovação. Nesta postagem vou indicar alguns aspectos que considero essenciais para defender uma proposta de pesquisa submetida à avaliação pelos pares. Todo bom projeto precisa passar com méritos por 5 regras básicas:
Regra 1 – Necessita apresentar uma proposta que seja relevante do ponto de vista científico, que contribua para comprovar, refutar, complementar lacunas ou, o que é mais raro, desbravar novas fronteiras no conhecimento. Como será julgado por pares especializados na questão que fique bem claro que superar a primeira barreira não é tarefa fácil. Se cumpriu com o dever de casa nas etapas de escolha de área para atuação, na definição do tema e na delimitação do objeto, meio caminho está andado. Tudo vai depender então da competência do pesquisador para utilizar estes aspectos como argumentos a favor na árdua tarefa de convencer seus avaliadores.
Regra 2 - Deve propor um projeto compatível com a política científica e tecnológica do país e das instituições financiadoras. Pouco recomendável é uma proposta que até pode ser muito relevante do ponto de vista do pesquisador ou mesmo de uma determinada organização se entra em contradição ou pior ainda está fora das prioridades para o fomento.  Jamais redigir uma justificativa sem consultar as normas do edital das agências para verificar em que medida o projeto pode ou não concorrer com chances de aprovação. Em caso de que a aderência seja somente parcial, atentar para o cuidado de apresentar as devidas alegações para que, mesmo estando fora das áreas prioritárias, quem financia deveria abrir uma exceção ou se arrependeria para o resto de seus dias. Se estiver bem formulado, quem sabe o argumento funciona!
Regra 3 – Além da relevância científica e da adequação à política científica e tecnológica do país e às áreas prioritárias das agências de fomento, nunca se esqueça de um pré-requisito sempre considerado básico: em que medida o projeto vai contribuir para melhorar as condições de vida na sociedade; em caso de financiada, que tipo de impacto a proposta terá sobre as áreas diretamente relacionadas com o objeto de estudos do ponto de vista acadêmico, profissional, econômico, cultural e social. As conseqüências que uma pesquisa pode ter para uma instituição, região, estado, país ou conjunto de países são um fato de grande relevância na hora de aprovação ou não de um projeto.
Regra 4 – Nas chamadas Ciências Sociais Aplicadas em que se enquadra o Jornalismo atente para o fato de que um projeto teórico provoca um tipo de conseqüências muito diferentes de um projeto que esteja relacionado com o desenvolvimento de inovações em parceria com os diversos segmentos da sociedade: governo, empresas, movimentos sociais, organizações não governamentais, sociedades científicas e acadêmicas ou órgãos multilaterais como ONU, CEPAL, Banco Mundial, OEA, UNESCO, etc... Em cada um destes casos (teórico ou aplicado) o pesquisador deve indicar de forma clara as articulações que serão estabelecidas a partir do projeto e em que medida estas parcerias contribuirão para viabilizar a execução da proposta e aumentar o impacto dos resultados.
Regra 5 - Nunca se deve tratar um projeto como um fato isolado. A melhor forma de justificar um projeto é demonstrar como a proposta representa uma continuidade no trabalho desenvolvido pelo coordenador da pesquisa. Neste caso, chamar a atenção para a contribuição do pesquisador ao longo de sua carreira, da relevância do grupo que participa, das articulações nacionais e internacionais que possui, dos financiamentos obtidos nos últimos cinco anos, dos resultados alcançados em pesquisas anteriores do ponto de vista teórico-metodológico ou da aplicação de conhecimentos para o desenvolvimento de inovações, do número de profissionais formados e obras de referência publicadas. Se for um jovem pesquisador indicar local de formação, grupos de que participa, com quem estudou e prêmios recebidos.  Na próxima postagem trataremos das funções e das características dos objetivos no projeto de pesquisa. Aguarde.
  
Com um abraço,

Elias

sexta-feira, 18 de março de 2011

Passo a passo para delimitação do objeto

Na análise de projetos de pesquisa tenho constatado que um erro muito comum que compromete o conjunto da proposta é a imprecisão com que se apresenta, fundamenta e delimita o objeto de estudo. Antes de mais nada,  que fique claro que não vou propor nenhuma receita que deve ser usada de modo inflexível.  Meu propósito é apenas sugerir um roteiro que possa contribuir com quem começa no ramo ou enfrenta dificuldades para formular um projeto bem articulado neste quesito.
Em primeiro lugar, depois de definido o tema, fazer uma criteriosa revisão da bibliografia levantada na etapa anterior, repassando artigos publicados em revistas científicas, bancos de teses e dissertações, comunicações em anais de congressos e livros publicados catalogados em bibliotecas de centros de excelência na área da pesquisa. 
Caso o projeto seja de natureza teórica, pode-se passar de imediato a revisar a discussão do tema nos textos de referência, antes de entrar na delimitação do objeto de estudo e na definição do problema de pesquisa. Se for uma pesquisa que pressupõe a delimitação de um corpus empírico para análise ou  pretende o desenvolvimento de um produto, processo ou inovação a situação é bem mais complexa.
É muito comum que na falta de uma competência metodológica mais sistemática o jovem pesquisador pense que basta descrever um corpus empírico para definir e delimitar o objeto. Um equívoco porque a construção conceitual e a delimitação do objeto de estudos são dependentes de uma análise exploratória  prévia que possibilite identificar as características, regularidades ou rupturas na área da temática em questão. 
Sem este procedimento preliminar não se pode definir teoricamente o objeto, delimitar o corpus da pesquisa empírica e muito menos caracterizar um problema que seja relevante para se discutir e elaborar hipóteses para comprovar, refutar, complementar ou, o que é mais raro, propor uma área inédita de pesquisa. 
Quando o pesquisador renuncia ao estudo preliminar exploratório o que se tem é apenas uma justaposição, muitas vezes, desconexa de conceitos ou autores relacionados com a temática mais ampla, acompanhada da indicação de um corpus em estado bruto, pré-teorético. Este tipo de atitude impede qualquer discussão epistemológica que permita um movimento direcionado para  construção conceitual do objeto e a proposição de um problema digno de relevância científica.
Toda vez que for capaz de fazer o dever de casa, sem abrir mão de aproximar-se por etapas da bibliografia de referência e da realidade empírica, uma vez que o domínio abstrato do objeto requer um processo lento e gradativo, o cientista aumenta o grau de controle sobre os fenômenos estudados. Não chega a garantir que as metas serão totalmente atingidas, mas demonstra que estamos diante de um profissional em pleno exercício de suas funções. Na próxima postagem trataremos dos requisitos mínimos para elaborar uma boa justificativa para um projeto de pesquisa. 

Com um abraço,

Elias.